Cláusulas essenciais em contratos em Portugal

Atualizado Jan 10, 2026
  • Em contratos de fornecimento, distribuição e serviços em Portugal, as cláusulas que mais evitam litígios são as de prazo, preço, pagamento, atualização e incumprimento.
  • Um bom contrato não "prevê tudo", mas define como as partes vão decidir e provar: entregas, aceitação, alterações, atrasos, qualidade e pagamentos.
  • Limitação de responsabilidade funciona melhor quando é clara, proporcional e ligada ao risco real; excluir "danos indiretos" sem definir o que isso significa costuma gerar conflito.
  • A cláusula de resolução de litígios (tribunal, mediação ou arbitragem) impacta diretamente tempo, custo, confidencialidade e capacidade de executar a decisão.
  • Penalidades, garantias e condições de rescisão antecipada precisam de gatilhos objetivos (prazos, notificações, cura) para serem aplicáveis na prática.
  • Revisar com advogado antes de assinar custa menos do que renegociar "em crise" ou litigar para corrigir um contrato mal escrito.

Este guia é para empresários e gestores que precisam assinar contratos comerciais em Portugal e querem reduzir o risco de incumprimento e discussões futuras. A intenção de busca aqui é principalmente "Fazer": identificar e redigir cláusulas essenciais para usar em contratos de fornecimento, distribuição e prestação de serviços.

Quais cláusulas sobre prazo, preço, forma de pagamento e atualização de valores não podem faltar?

Para prevenir disputas, descreva com precisão: duração do contrato, quando o preço vence, como se paga e como os valores podem ser atualizados. Em Portugal, também faz diferença alinhar o contrato com as regras de pagamentos em transações comerciais e prever juros/compensações por atraso.

Use este checklist mínimo (adapte ao seu setor):

  • Prazo do contrato: início, fim, renovação automática (sim/não), aviso prévio para não renovar.
  • Objeto e escopo: o que exatamente é fornecido/prestado, onde, com que especificações e níveis de serviço (SLA), se aplicável.
  • Preço: fixo, por unidade, por hora, por marcos (milestones), por consumo.
  • Impostos e despesas: se o preço inclui IVA, transporte, seguros, embalagens, instalação, deslocações.
  • Fatura e vencimento: quando a fatura é emitida, prazo de pagamento, meio (transferência, débito direto), IBAN, referência.
  • Aceitação: como se confirma a entrega/serviço (assinatura, relatório, e-mail), prazos para reclamar defeitos.
  • Atualização de valores: índice (ex.: inflação), periodicidade (anual), fórmula e data de aplicação.
  • Juros de mora e custos de cobrança: taxa aplicável, quando começa a contar, e quem suporta custos de cobrança.

Em transações comerciais, é comum prever um prazo de pagamento alinhado com o regime aplicável (por regra, 60 dias entre empresas, com possibilidade de acordo expresso em certas condições, e prazos mais curtos com entidades públicas). O Decreto-Lei n.º 62/2013 também prevê uma indemnização fixa mínima de 40,00 EUR por custos de cobrança em atraso, além dos juros de mora, em situações abrangidas pelo diploma. Decreto-Lei n.º 62/2013 (Diário da República) (portal.oa.pt)

Exemplo prático (fornecimento): "Pagamento a 30 dias após receção da fatura e confirmação de entrega no armazém X. Reclamações por defeito aparente em 5 dias úteis; defeito oculto em 30 dias após deteção. Atualização anual pelo índice Y, com base no mês Z."

Perguntas de acompanhamento que normalmente surgem:

  • O que acontece se o cliente atrasa o pagamento repetidamente?
  • Como definir "aceitação" em serviços contínuos (mensal) sem travar a faturação?
  • Como lidar com aumentos de custos de matéria-prima ou energia?

Como usar limitação de responsabilidade e exclusão de danos indiretos sem criar um contrato "inexecutável"?

Limitar responsabilidade é útil para tornar o risco previsível e precificável, mas precisa ser claro e equilibrado para resistir a contestação. A exclusão de "danos indiretos" costuma funcionar melhor quando o contrato define o que entra nessa categoria e preserva responsabilidades essenciais.

Boas práticas para uma cláusula utilizável:

  • Defina o "teto" (cap): por exemplo, um múltiplo do valor pago nos últimos 12 meses, ou o valor total do contrato.
  • Liste exceções ao teto: dolo, violação de confidencialidade, violação de PI, danos pessoais, fraude, multas regulatórias causadas por culpa da outra parte (ajuste conforme o caso).
  • Explique "danos indiretos": inclua exemplos como perda de lucro, perda de receita, perda de oportunidade, perda de dados, interrupção do negócio.
  • Alinhe com seguros: se há seguro de responsabilidade civil profissional, ciber, transporte, produto, indique como o seguro se articula com o cap.

Pontos de atenção em Portugal quando usa condições gerais (minutas padrão): o regime das cláusulas contratuais gerais pode limitar exclusões excessivas, e certas exclusões são particularmente sensíveis quando afetam direitos essenciais ou criam desequilíbrio manifesto. Em contratos com cláusulas pré-redigidas, o risco aumenta se o texto for longo, opaco ou contraditório com o que foi negociado na prática.

Exemplo prático (prestação de serviços): "A responsabilidade total do prestador fica limitada ao valor pago pelo cliente nos 6 meses anteriores ao evento. Excluem-se danos indiretos (incluindo perda de lucros, perda de receitas e interrupção de negócio), exceto em caso de dolo ou violação de confidencialidade."

Perguntas de acompanhamento que normalmente surgem:

  • É melhor um cap por evento ou um cap global anual?
  • Como tratar "lucros cessantes" em contratos de distribuição?
  • Posso limitar responsabilidade por atrasos de entrega?

Qual a melhor cláusula de resolução de litígios: tribunal, mediação ou arbitragem?

A melhor escolha depende de urgência, confidencialidade, tecnicidade do conflito e capacidade de executar a decisão. Em geral, tribunal é mais previsível em custos públicos e recursos; arbitragem tende a ser mais rápida e confidencial, mas com custos privados; mediação é ótima para preservar relações comerciais quando existe margem real para acordo.

Opção

Quando costuma ser melhor

Pontos de atenção

Tribunal judicial

Cobrança, incumprimento claro, necessidade de medidas judiciais e execução

Tramitação pode ser mais lenta; publicidade do processo

Mediação

Conflitos de interpretação, renegociação de preços/prazos, manutenção de parceria

Sem acordo, volta-se ao litígio; exige boa-fé real

Arbitragem

Disputas técnicas, confidencialidade, contratos internacionais, necessidade de decisão mais célere

Custos com árbitros e centro; cláusula precisa ser bem escrita

Se optar por arbitragem, indique a lei aplicável e deixe a convenção de arbitragem completa (institucional vs ad hoc, sede, idioma, número de árbitros). Em Portugal, a Lei da Arbitragem Voluntária é a referência para convenções de arbitragem e condução do processo arbitral. Lei n.º 63/2011 (Lei da Arbitragem Voluntária) (pt.scribd.com)

Modelo prático de "escada" (multi-tier) que reduz litigância imediata:

  • Negociação entre gestores (10 dias úteis)
  • Mediação (30 dias)
  • Arbitragem ou tribunal (conforme escolha do contrato)

Perguntas de acompanhamento que normalmente surgem:

  • Arbitragem é sempre mais barata do que tribunal?
  • Uma cláusula de arbitragem mal escrita pode travar o processo?
  • Como escolher "sede" e idioma em contratos Portugal-Espanha?

Como estruturar garantias, penalidades por incumprimento e condições de rescisão antecipada?

Estas cláusulas servem para duas coisas: incentivar cumprimento e dar um caminho claro de saída quando a relação deixa de fazer sentido. Para funcionar, defina "o que é incumprimento", como se notifica, se existe prazo de cura e quais as consequências (penalidade, suspensão, resolução, indemnização).

Garantias e segurança de pagamento (escolha conforme o risco):

  • Garantia bancária ou standby letter of credit (bom para fornecimento com produção antecipada).
  • Fiança (atenção ao risco pessoal, especialmente em PME).
  • Reserva de propriedade (comum em venda de bens, quando aplicável).
  • Retenção de pagamento/holdback (por aceitação final em serviços/projetos).

Penalidades e níveis de incumprimento:

  • Cláusula penal por atraso: valor fixo por dia/semana, com teto máximo e ligação a um prejuízo razoável.
  • Service credits (em SLA): desconto na fatura quando o nível de serviço cai abaixo do acordado.
  • Juros e indemnização por cobrança: especialmente relevantes quando o principal risco é atraso de pagamento em transação comercial. (dre.pt)

Rescisão antecipada (explique em linguagem simples no contrato):

  • Resolução por incumprimento material: liste gatilhos (ex.: atraso superior a X dias, falhas repetidas de qualidade, violação de confidencialidade).
  • Prazo de cura: "notificação + 10/15 dias para corrigir", exceto violações graves.
  • Denúncia sem justa causa (em contratos de duração indeterminada): defina aviso prévio (ex.: 60/90 dias) e como liquidar entregas/serviços em curso.
  • Efeitos da saída: devolução de materiais, pagamento proporcional, transição, confidencialidade, dados, PI criada no projeto.

Exemplo realista (distribuição): "Se o distribuidor não cumprir metas por 2 trimestres consecutivos, o fornecedor pode exigir plano de correção em 15 dias. Se não houver correção em 60 dias, pode resolver o contrato, mantendo-se obrigações de confidencialidade e devolução de materiais."

Perguntas de acompanhamento que normalmente surgem:

  • Qual a diferença prática entre "resolução" e "denúncia" no dia a dia?
  • Como evitar que a cláusula penal seja vista como desproporcional?
  • Como encerrar contrato sem perder clientes finais ou dados?

Que boas práticas ajudam a rever contratos com apoio de advogado antes da assinatura?

O melhor momento para rever é quando ainda existe margem de negociação e as equipas internas conseguem explicar o que realmente vai acontecer na operação. Um advogado acrescenta valor ao traduzir isso para cláusulas aplicáveis, identificar riscos "escondidos" e alinhar o contrato com a realidade fiscal, regulatória e de prova em caso de conflito.

Checklist de revisão em 60 a 90 minutos (antes de enviar ao jurídico):

  1. Liste os 3 riscos principais do negócio: não pagamento, atraso, qualidade, devoluções, exclusividade, PI, confidencialidade, dados.
  2. Confronte o contrato com o "processo real": quem aprova entregas, quem assina aceitação, como se mede serviço.
  3. Procure contradições: proposta comercial vs contrato, anexos vs corpo, e-mails vs minuta.
  4. Valide números e datas: prazos, renovação automática, índices de atualização, juros, penalidades.
  5. Garanta "provas": relatórios, tickets, e-mails oficiais, assinatura/aceitação, logs, recibos.
  6. Revise cláusulas padrão: limitação de responsabilidade, indemnizações, cessão, subcontratação, força maior, confidencialidade, lei e foro.

Três mitos comuns que causam problemas:

  • "Minuta padrão resolve": contratos padrão ajudam, mas sem adaptar escopo, aceitação e incumprimento, o litígio vira debate de versões.
  • "Excluir responsabilidade me protege sempre": exclusões vagas ou desequilibradas podem ser questionadas e ainda prejudicam a negociação quando surge um incidente real.
  • "Arbitragem é sempre mais rápida e barata": pode ser mais célere e confidencial, mas exige cláusula bem feita e orçamento para custos privados.

Perguntas de acompanhamento que normalmente surgem:

  • Quais anexos devo ter (SLA, tabela de preços, especificação técnica, DPA)?
  • Como negociar sem "abrir mão" do essencial?
  • O que muda quando a outra parte é entidade pública?

Perguntas frequentes sobre contratos comerciais em Portugal

Posso assinar um contrato comercial só por e-mail?

Em muitos casos o contrato pode ser válido por acordo de vontades, mas para empresas o mais seguro é ter texto final consolidado, anexos fechados e um mecanismo claro de aceitação (assinatura, confirmação formal, ou plataforma). Isso reduz discussões sobre versão aplicável, prazo e preço.

Atualização anual de preços é "automática" se eu escrever no contrato?

Funciona melhor quando o contrato indica o índice, a fórmula, a data-base e como se comunica o novo preço. Se deixar vago ("atualiza conforme inflação"), aumenta a margem para contestação.

Uma cláusula de "pagamento a 90 dias" é sempre válida entre empresas?

Quanto maior o prazo, maior o risco de ser visto como abusivo em certos contextos. Em transações comerciais, é comum trabalhar com prazos mais curtos e prever juros e custos de cobrança quando há atraso, incluindo os mecanismos previstos no Decreto-Lei n.º 62/2013. (dre.pt)

Como escolher entre tribunal e arbitragem em contratos de fornecimento?

Se o tema principal é cobrança e execução, tribunal costuma ser suficiente. Se o contrato é técnico, confidencial e com valor elevado, arbitragem pode ser melhor. Em ambos, uma cláusula de "escada" (negociação/mediação antes) tende a reduzir custo total.

Cláusula penal por atraso pode substituir indemnização?

Pode ajudar a quantificar prejuízos e evitar discussões longas, mas deve ser proporcional e bem definida (gatilho, cálculo, teto). Em atrasos de pagamento em transações comerciais, também pode coexistir com juros e custos de cobrança quando aplicável.

Quando contratar um advogado

Contrate antes de assinar quando o contrato tem valor relevante, prazo longo, exclusividade, penalidades altas, dados sensíveis, propriedade intelectual, ou quando a minuta veio "pronta" da outra parte. Também vale contratar quando você vai entrar em distribuição (risco de território, metas, stock, devoluções) ou fornecer com produção antecipada (risco de não pagamento).

Próximos passos

  1. Escolha um modelo de contrato (fornecimento, distribuição ou serviços) e liste anexos necessários (escopo, preços, SLA, especificações).
  2. Preencha o checklist das cinco áreas: pagamento, responsabilidade, litígios, incumprimento/rescisão, e revisão final.
  3. Alinhe internamente quem aprova aceitação, quem fatura e como se documenta entrega/serviço.
  4. Submeta o texto final a revisão jurídica focada em riscos e exequibilidade, não apenas "correções de forma".

Leituras oficiais úteis: Decreto-Lei n.º 47344 (aprova o Código Civil) (madeira.gov.pt)

Precisa de Aconselhamento Jurídico?

Conecte-se com advogados experientes na sua área para aconselhamento personalizado.

Gratuito e sem compromisso.

Conecte-se com Advogados Especialistas

Obtenha aconselhamento jurídico personalizado de profissionais verificados na sua área

Desde 2018
15 advogados
Banca e Finanças Negócios Corporativo e Comercial +1 mais
Ligar Agora

Todos os advogados são profissionais verificados e licenciados com historial comprovado

Encontrar Advogados

Aviso Legal:
A informação fornecida nesta página é apenas para fins informativos gerais e não constitui aconselhamento jurídico. Embora nos esforcemos por garantir a precisão e relevância do conteúdo, a informação jurídica pode mudar ao longo do tempo, e as interpretações da lei podem variar. Deve sempre consultar um profissional jurídico qualificado para aconselhamento específico à sua situação.

Rejeitamos toda a responsabilidade por ações tomadas ou não tomadas com base no conteúdo desta página. Se acredita que alguma informação está incorreta ou desatualizada, por favor contacte-nos, e iremos rever e atualizar quando apropriado.